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Críticas:
Gisele Rech - O Estado do Paraná - 02/04/2006
Antônio Hohlfeldt - Jornal do Comercio - 07/04/2006
Diego Adami - Jornal Pioneiro - 21/04/2006


Gisele Rech - O Estado do Paraná - 02/04/2006

O ator é alguém que se reinventa o tempo todo, a cada trabalho, a cada dia. Uma prova perfeita da afirmação é o ator José de Abreu. Quem teve a oportunidade de assistir ao espetáculo Fala, Zé!, que estreou no XV Festival de Teatro de Curitiba, pôde comprovar que a cada dia ele se redescobre e compartilha todo este prazer com o público.A concepção do espetáculo, inicialmente, vertia para um argumento trabalhado em cima do nome mais comum entre os brasileiros José criando referências a personagens comuns e famosos, contanto nos entremeios a história do próprio Abreu. Porém os (des)caminhos da política brasileira, coincidentemente tendo como um dos personagens um amigo de longa data do ator, o ex-braço direito do presidente Luíz Inácio Lula da Silva, José Dirceu, desviou o tema. Sim, o espetáculo ganhou um contorno político-escrachado, mas tão bem amarrado que não se mostra uma forçação antilulistas. Há críticas, porém com boa dose de humor e elegância.
Talvez por isso, a trama dirigida por Luiz Arthur Nunes e monologada por Abreu tem um tom tão verossímil - à exceção das intervenções do próprio Zé travestido de outras personagens na tela de projeções que faz as vezes de cenário -, que fica difícil distinguir o que realmente fez parte da vida de Abreu ou não.
O próprio ator define o espetáculo como “uma autobiografia não-autorizada ou uma comédia psicopolíticodélica”, usando um curioso neologismo de contraponto.
A nostalgia da história de vida do ator, tendo como pano de fundo a história do Brasil, reúne memórias de sua vida e da de pessoas próximas, reunidas nos últimos 40 anos. Na viagem, há o retrato do engajamento político à época da ditadura militar à decepção com o governo oposicionista.
No aspecto técnico, Fala Zé abusa dos recursos multimídia e acerta ao quebrar o ritmo do monólogo com projeções de recortes de jornal, cenas verídicas e intervenções de outros personagens, que abrem o caminho para as aventuras de Zé e dos Josés que acompanharam ou acompanham a sua trajetória.
Apesar de algumas falhas no dia da estréia, contornadas com humor e maestria pelo ator e sua capacidade de improviso, a impressão deixada foi muito positiva. Só resta saber se quando voltar a Curitiba em junho, como foi prometido por ele, o espetáculo continue igual. Com as mudanças dos rumos políticos do Brasil, ele já avisou: tudo pode acontecer com o texto original. Afinal, a obra é propositadamente aberta.
Gisele Rech é jornalista
gisele@oestadodoparana.com.br

Antônio Hohlfeldt - Jornal do Comercio 07/04/2006

José de Abreu está de volta

Há exatos 30 anos, num dia 8 de abril de 1976, eu registrava, nas páginas do Correio do Povo, a estréia da peça A Salamanca do Jarau, baseada em João Simões Lopes Neto, dirigida por Luiz Arthur Nunes e estrelada por José de Abreu, na cidade de Jaguarão. O grupo teatral responsável pelo feito vinha de Pelotas, onde José de Abreu se encontrava então. Ao completar essas três décadas, o ator resolveu encetar uma nova temporada pelo interior do Rio Grande do Sul, com Fala Zé, que assisti em sessão especial, no Hotel Laje de Pedra, em Canela.
José de Abreu queria repassar sua vida: a vida pessoal e a vida artística. Assim, começou falando de sua cidade natal, de sua infância e de sua família. De como chegou a estrear no teatro, ainda num espetáculo escolar, e de como, depois, sua vida seria levada por muitas partes do Brasil e do mundo. Nesse extenso flash-back, a gente esperaria um espetáculo em primeira pessoa do singular. No entanto, em menos de meia hora (num total de duas horas de duração, o que é muito, mas já está sendo cortado), o que era um espetáculo autobiográfico se transforma em desbragada ficção, e a primeira pessoa do singular torna-se uma primeira pessoa do plural, com direito a terceiras pessoas do singular. A autobiografia vira pura invenção, mas partindo de um aspecto verídico: o fato de que José de Abreu conheceu José Dirceu, o ex-ministro, e José Mentor, o ex-assessor, de quem foi colega e companheiro ao longo de anos.
Quando o roteiro começa a relembrar os anos de militância política estudantil, o Congresso de Ibiúna da UNE e a prisão dos estudantes, a gente não sabe mais se está dentro da história ou da ficção. As imagens são verdadeiras: documentários amadores, jornais de tela da época, etc. Mas o entrecho se torna complexo, fantasioso e, entre uma fuga e outra, um emprego aqui e uma viagem sem volta à Europa, o espectador é levado de roldão numa aventura envolvente, engraçada e sofrida (logo digo por que). Para fazer esta ponte entre o presente e o passado, o roteiro se vale de dois artifícios, muito bem aproveitados: de um lado, a interpretação inicial de Cambalache, que retornará ao final da peça, em versão inesperada em língua portuguesa e numa descoberta sonora que o aproximará do hino nacional brasileiro. De outro, mediante o uso de tecnologias de vanguarda como o vídeo, projetado sobre três diferentes telas em pleno espaço cênico, o ator/personagem é surpreendido pela visita do Arcanjo Gabriel (ele mesmo, José de Abreu), que anuncia uma nova missão para o ator.
O arcanjo interfere em diferentes momentos e retorna ao final, com a chave de ouro necessária. Assim, a concepção deste espetáculo está perfeitamente realizada, num movimento circular que, na verdade, não se repete: e daí a amargura final. A viagem pela vida de José de Abreu, que é também a nossa e de nossa pátria, leva-nos ao mesmo sentimento de desalento e frustração hoje em dia experimentado por tantos em face dos acontecimentos que têm envolvido a República e a administração federal. Num quase desespero, o personagem/ator José de Abreu tenta uma negociação com o Arcanjo: quem sabe parar ali, naquele 2003, quando Lula assume a Presidência da República? Ele,o personagem/o ator, agora conhece os riscos da nova etapa, reconhece a tarefa antecipada pelo Arcanjo.
Por que não evitar a frustração e dar uma oportunidade ao futuro? O Arcanjo é inflexível: se não for assim, será de outro modo, diz, e faz com que o enredo se desenrole até o fim. Como última saída, o ator/personagem divide suas expectativas futuras imediatas - há uma eleição no próximo outubro - com os espectadores, adotando um distanciamento crítico típico do teatro brechtiano, certamente contribuição do diretor Luiz Arthur Nunes.
O roteiro teve, além de Luiz Arthur e de José de Abreu, a contribuição de Angel Palomero. Ator do grupo de Maria Helena Lopes nos bons anos 70, agora ele está radicado na Unirio, como o diretor. Assim, a peça escrita a oito mãos faz um verdadeiro passeio mural pela vida da nação brasileira desde os anos 1950 até, literalmente, os nossos dias, tornando-se, neste sentido, o primeiro espetáculo teatral que aborda essas questões tão atuais e imediatas, projetando-as para um futuro próximo, depois de documentá-las exemplarmente.
José de Abreu interpreta, canta, dança, imita e parodia (aspectos de sua potencialidade interpretativa que eu desconhecia), sempre guiado pela mão firme de Luiz Arthur Nunes. O espetáculo atinge cores de uma antiepopéia (epopéia no tom, que se torna seu negativo pela frustração que traduz), envolvendo, emocionando (como quando apresenta cenas da montagem original de Morte e Vida Severina, de João Cabral, que revelou Chico Buarque ao mundo; ou mostra o último concerto do The Beatles, no alto de um edifício, sede da gravadora Apple, em Londres, com imagens originais). Por tudo isso, Fala Zé é um encontro obrigatório de todas as gerações consigo mesmas: os mais velhos, com certa nostalgia.
Os mais jovens, com certa curiosidade. Todos tendo, neste belo trabalho - atestado de maturidade artística, pessoal e política do ator - um motivo a mais para refletir e assumir seu destino nas mãos na próxima eleição.
Raras vezes um trabalho teatral foi tão feliz ao propor um tema, desenvolvê-lo e atualizá-lo, até o momento imediato, encerrando o espetáculo sem apresentar qualquer solução específica, na medida em que a alternativa é repassada imediatamente a cada um dos espectadores. Por tudo isso, a estréia de logo mais, no Theatro São Pedro, será de muita emoção e de reafirmação da magia do teatro. José de Abreu soube festejar uma data e um aniversário.
Fala mais, José de Abreu!
cultura@jornaldocomercio.com.br

Diego Adami - Jornal Pioneiro - 21/04/2006

José de Abreu nu e cru
Ator apresenta domingo, no Teatro Pedro Parenti, a peça 'Fala Zé!', que revisita seus 40 anos de carreira
Um caipira de Santa Rita do Passa Quatro (SP) vai estudar Direito em São Paulo, capital. Convive com José Dirceu e Chico Buarque, torna-se ator, é preso por sua participação na luta armada, exila-se na Inglaterra e na Holanda, decide viver em Pelotas, depois vira estrela global. Não é ficção, é a vida de José de Abreu, que serve de núcleo para o monólogo Fala, Zé!, com direção do gaúcho Luiz Arthur Nunes, no qual dá vida a quase 20 personagens. A peça será encenada neste domingo, às 20h, no Teatro Municipal Pedro Parenti, na Casa da Cultura.
- Na verdade não é um monólogo. Odeio a palavra monólogo porque não estou sozinho no palco. Estou com muita gente - desabafa em entrevista ao Pioneiro, por telefone, de Porto Alegre.
No ano em que completa 60 anos de idade e 40 de profissão, o ator resolveu montar um espetáculo sozinho para reviver a trajetória de A Salamanca do Jarau, peça que encenou com Luiz Arthur entre 1976 e 1977, percorreu quase 200 cidades gaúchas e seguiu para temporada em São Paulo.
- Me emociona voltar para o Rio Grande do Sul e refazer as viagens que fiz há 30 anos com A Salamanca do Jarau. O melhor de tudo é descobrir que essa parceria com o Luiz Arthur continua firme - comenta.
Cidadão honorário de Pelotas, José de Abreu aparece em seu primeiro monólogo como um cidadão do mundo. O texto foi criado pelo gaúcho Angel Palomero e por Walter Daguerre, a partir de depoimentos e improvisações de Abreu. O roteiro se inicia na infância, segue até a volta ao Brasil, na década de 70, depois dá um salto para os dias de hoje, lembrando a carreira do ator no cinema, no teatro e na televisão.
Há elementos de ficção aqui e ali, formatando o que o ator chama de autobiografia não-autorizada.
No campo do real estão passagens como a convivência com o amigo e ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, a prisão durante o congresso da UNE em Ibiúna, em 1968, a passagem pelo complexo do Carandiru e as experiências alucinógenas.
A liberdade ficcional viabiliza uma reunião de Abreu, Caetano, Gil e Roberto Carlos em Londres, quando o Rei mostra Debaixo dos Caracóis dos seus Cabelos. Ajudam a contar essas histórias dois telões e uma TV de plasma, que servem para que Abreu contracene com ele mesmo.
Na trilha criada por David Tygel estão London, London, Alegria, Alegria, Cambalacho e Sociedade Alternativa.
DIEGO ADAMI/ Com Agência RBS
diego.adami@jornalpioneiro.com.br

 



 
 

 

 

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